Tudo começou quando comprei a máquina de lavar. Minha mulher, cansada de esfregar as roupas, me pediu com a cara mais meiga do mundo, aquele olharzinho pelo qual havia me conquistado, para que eu comprasse a máquina. Atendi o pedido. Meu salário não era bom o suficiente, mas eu a amava. Conversei com o dono da loja e com o gerente do meu banco. Me fizeram ótimas ofertas. Realmente eu podia comprar a máquina e continuar aliementando a minha mulher e eu. Era um bom negócio. Pagamento facilitado para sessenta dias etc. Cheguei em casa com a máquina de lavar e o carregador da loja. Minha amada não cabia em si de felicidade. Eu sinceramente achava que aquela maldita máquina não servia para nada, mas pelo menos poupava trabalho da mulher e a deixou muito feliz.
Após dois meses, senti na pele a máquina. Pagamento facilitado? Eu estava era fodido. Mas a mulher parecia bem. Estava muito bem acomodada em casa. Para lavar as roupas agora bastava apertar um botão. Estava realmente acomodada. Tão acomodada que começou a ficar entediada. Me pediu um DVD. Já estava difícil de pagar a máquina, mas parecia que o DVD era mais barato. Fui na mesma loja, conversei com o gerente denovo, e minha mulher ficou feliz denovo. Eu passava o dia inteiro trabalhando. Se usei aquela porcaria de DVD duas vezes foi muito. Mas a minha querida mulher estava feliz em casa.
Passou-se um tempo. A minha vida continuava igual no trabalho e a minha mulher ficava em casa dirigindo a máquina de lavar e assistindo DVD. Minha situação no banco estava bem ruim. As dívidas desses BENS DE CONSUMO estavam me deixando preocupado, mas quando ia até o banco e falava com o gerente este me dizia que estava tudo bem.
Numa bela manhã de sol, um lindo domingo, acordei com a mulher reclamando de dor nas costas. Disse a ela que era porque passava muito tempo sentada assistindo ao DVD, mas ela disse que era o colchão no qual dormíamos. Queria um novo. Para mim aquele estava ótimo, mas ela disse que aquela dor já vinha atormentando-a desde antes do DVD e que precisava de um colchão novo ou acabaria tendo um colapso.
Quem era eu para recusar um pedido do amor da minha vida? Fui com ela na loja e compramos um colchão d’água. Era ótimo. Uma beleza. Naquela noite quente comemoramos o novo colchão, e hoje, quando me lembro, acho que foi a melhor noite da minha vida, mas ao mesmo tempo o início de uma desgraça.
No mês seguinte vi que com tantas dívidas não teria dinheiro para a minha mulher fazer compras no mercado. Fui falar com o gerente. Ele disse que estava tudo bem, que me daria crédito até eu terminar de pagar a máquina de lavar, só faltavam três meses etc etc. Agradeci a compreensão e a boa vontade daquele grande homem de negócios e fui para casa. Naquela noite choveu muito. Muito. Choveu tanto que a telha dos fundos da casa desmoronou. Eu tinha que fazer alguma coisa, ou toda vez que chovesse a cozinha seria inundada. Na manhã seguinte liguei para o meu chefe avisando que não poderia ir pois tinha que consertar a telha. Comprei materiais e fui pra casa. Era trabalho difícil e tive que chamar um pedreiro. Após um dia de trabalho a telha estava no lugar. Fiquei devendo ao pedreiro.
No dia seguinte fui trabalhar mas fui despedido. Na volta para casa choveu denovo. Choveu como na noite em que a telha desmoronou, mas acho que um pouco mais, pois a desgraçada caiu denovo.
Daquele dia em diante não me lembro muito bem do que aconteceu. Lembro que a polícia invadiu minha casa para confiscar meus bens, eu devia muito dinheiro. Minha mulher me deixou. Os psiquiatras diziam que eu era um comprador compulsivo. Os advogados diziam para eu confessar. Estava confuso. Quando via um bar na rua, sentia vontade de beber uma cerveja, mas gastei tudo que eu tinha em máquina de lavar, DVD, colchão e telhado. Fui preso e estou num manicômio.
Hoje penso de quem foi a culpa. Minha? Da minha amada esposa? Dos psiquiatras e advogados? Do gerente? Do meu chefe?
Não sei, mas a vida aqui no manicômio não está tão ruim. Tenho comida de graça, remédios de graça, cigarros de graça, não preciso me preocupar com o que a minha mulher quer, não preciso pedir ajuda ao gerente do banco, não preciso dar satisfações ao chefe... Passo o dia jogando xadrez com um amigo que conheci aqui, que também se fodeu com dívidas e também tinha uma mulher, e também trabalhava.Tenho todo o tempo do mundo para pensar, refletir sobre o que me aconteceu. Desenvolvi a minha humilde teoria. Acho que os bens de consumo não servem para nada, são apenas luxo, mas as pessoas gostam de luxo. Pelo nosso modo de vida e por toda a propaganda que absorvemos acabamos por pensar que precisamos de luxo, dos bens de consumo. Trabalhamos para isso. Não tendo condições de satisfazer nossas “mortais necessidades” aparece o banco, o financiador, o agiota, ou o que quer que seja, como o benfeitor, o amigo que vai nos ajudar a suprir nossas necessidades. Ele nos dá crédito, um empréstimo, e nós vamos felizes para casa com a nova aquisição. Mas se o praticamente inevitável acontece, nos ferrarmos, ele tem a toda poderosa lei do lado dele e aí vemos o quão dominados estávamos. E se não somos mandados para um manicômio, como eu fui, somos condenados a passar o resto de nossas vidas como infelizes ratos de laboratório, ou, se preferirem, devedores que assistem DVD em colchão d’água.
Mas agora está tudo bem.
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Um comentário:
Poorra...
O consumismo...
O espetáculo...
os mecanismos modernos de dominação...
tudo aí...
E quem é inocente nisso?
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